domingo, 1 de Novembro de 2009

O dia

O JOHN estreou um dia novo, pois tinha gasto todos os outros.

quinta-feira, 23 de Julho de 2009

As perspectivas

Os pombos quando voam, podem ver, lá do alto onde eles andam a voar, assim mesmo à pombo, os decotes das meninas que usam vestidos decotados. As lagatixas, se forem a passar no chão, e levantarem a cabeça reptilianamente, podem ver o que está por baixo dos vestidos curtos que os pombos não vêm. Se as meninas, ao olharem para os pombos, sem querer, pisarem as lagartixas e as esborracharem, ficam com os sapatos todos sujos. Baixam-se para os limpar e quem lhes vê o decote sou eu. Tu que me esperas do outro lado da rua, vês o que está por baixo.

sábado, 30 de Maio de 2009

Os gritos

Fizera o teste da apalpação dos desejos e descobrira o que mais temia: tinha um tumor de gritos. Os gritos andaram-lhe estes anos todos a fugir da boca e acumular-se, todos espremidos e amarfanhados, num tumor que lhe crescia no desejo de dentro.

Quis então gritar, muito, mas o grito fugiu-he para o tumor que subitamente cresceu, de tal forma, que o desejo passou de dentro para fora.

Não rebentou. Ficara como uma enorme bola presa sobre a cabeça, tansparente. Podiam ver-se os gritos todos que ela continha, comprimidos, trémulos, calados. Era uma porcaria. Era como se tivesse o estômago fora do corpo e aí se pudesse observar a sua digestão.

Tentou meter o desejo outra vez para dentro, mas não cabia. Tentou escondê-lo com o chapéu, mas mais valia tentar disfarçá-lo, fazendo de conta que era ele próprio um chapéu. Seria sempre um chapéu esquisito e nojento, como seria qualquer chapéu que se assemelhasse a um estômago a fazer a digestão... Lembrou-se que nunca tinha visto nenhum, e que assim, não poderia enganar ninguém.

Tinha de sair de casa, para continuar com a vidinha. E lá foi, rua abaixo, com o desejo ao léu. Balançava-lhe sobre a cabeça aquela estranha trouxa cheia de gritos. Era realmente uma vergonha, pensava, toda a gente, agora, poder ver o seu desejo e o que tinha dentro. Mas lá continuou, na vaga esperança que os seus gritos, dentro da bola transparente do desejo, se pudessem confundir no meio de todos os outros que as outras pessoas à volta iam deitado para fora.

Mas isso era muito difícil, porque os gritos não ficavam muito tempo ao pé das pessoas. Mal elas os deitavam para fora, desvaneciam-se e, como propulsores, faziam com que quem gritava fosse subindo no ar. Quanto mais gritos deitasse, e quanto maiores fossem, mais quem gritava subia.

Então, a rua estava cheia de pessoas que andavam em difentes alturas. Umas mais acima, outras mais abaixo. Outros muito lá em cima, onde os pombos voam. Algumas, que se via que já não gritavam há muito tempo, iam andando a meia altura, e os seus passos lentos e arrastados que pisavam as cabeças de muitos outros que estavam por baixo, não deixavam que estes subissem. Esses pouco ou nada gritavam. E depois ele, ao nível do chão, aparentemente sozinho, pelo menos àquela hora.

Não. Ninguém ia reparar no seu desejo, pois todos andavam em planos mais altos.

Foi quando estava quase a ser feliz com esta ideia, que alguém que andava num plano exactamente por cima da sua cabeça tropeçou no seu desejo. Este rebentou-se com grande estrondo e todos os gritos que tinha dentro saíram com uma força de tal forma grandiosa que arrastou, misturando-se com todos os outros gritos das pessoas, mesmo aqueles que ainda não tinham saído. A massa de gritos levou consigo todas as pessoas para onde nunca alguém tivera estado, lá em cima, muito alto, tão alto que não se não se podia avistar, nem mesmo os pombos.

E a rua ficou deserta.

quinta-feira, 28 de Maio de 2009

O tempo

Se tivesse vivido em outras épocas e se tu também lá tivesses estado, reconhecer-te-ia em todas, se acaso nos cruzássemos, pois viverias sempre fora do tempo.

sábado, 23 de Maio de 2009

A distracção

- Eh! Não me estás a ligar nenhuma! Estou a falar... Não me ouviste?
- Desculpa, estava demasiado ocupado a pensar em ti, para te dar atenção.

quarta-feira, 6 de Maio de 2009

The abyss

JOHN - Excuse me. I couldn't avoid observing that you have a dellicious deep dark velvet vertigo, and I would be very pleased if you let me lick it.
Abyss - Sure. But first you have to wipe the silence from your mouth. It's too thick and harsh.
JOHN - I can only do that by biting that soft juicy echo of my mind that you have down there. Only it's sweet fluid can melt it. Would you throw me it, please?
Abyss - There it goes. Don't swallow it.
JOHN - Thank you. I'm done. Can I lick now?
Abyss - No. I have changed my mind. I want something more. I want to see your words naked. Undress and put them all lined up at my edge with their genitals turned in my direction.
JOHN - Like this?
Abyss - Nice... What a beautiful sight. Now, I want your words to copulate all together. I want to see a trully verbal orgy.

(to be continued)

domingo, 26 de Abril de 2009

A culpa

A culpa era agora mais pequena, já que se tinha livrado da parte dela que dizia respeito à ordem com que pensava nas coisas. O saco já não servia para nada, porque já não guardava argumentos.

Resolveu, então, meter a culpa no saco, mas esta ainda era grande de mais para lá caber e crescia quanto mais pensava que não tinha o que fazer com o saco.

Então teve uma ideia mesmo esperta e enfiou a cabeça dentro do saco. Assim, não só podia esconder parte da culpa, como esta ainda ficava mais pequena porque tinham desaparecido as preocupações sobre o que fazer com o saco.

Estava quase a ser feliz.